20.7.08

Das Helmi em Salvador agora que assistí

Assistí ontem ao Fausto do Das Helmi. Muito divertida a proposta. Não ofende o texto. Duvida um pouco da capacidade de percepção do brasileiro ( como diz a 'Frente em defesa da Cultura Catarinense' na postagem anterior só que lá cúmplice da proposta ). Gostei mas fica aquela pergunta de quase sempre: por que bonecos?

Encenação interessante foi feita aquí com a direção de Daniel Guerra, recém formado no curso da Ufba, elenco também de formandos e a participação de André Rosa no papel de Fausto, todo em gramelô e jogos corporais fascinantes. Ficou pouco em cartaz por ser uma mostra ligada ao curso mas tenho essas imagens:
























Assistencia de direção: Maecelle Pamponet
Design sonoro: Laura Franco
Luz: Pedro Rodrigues
Figurino e maquiagem: Tarcisio Almeida


'O mito de Fausto, a obra Fausto de Goethe e o seu pensamento

O mito do doutor Fausto é uma das lendas clássicas mais importantes da civilização ocidental. Oto Maria Carpeaux no prefácio da tradução de Antônio Feliciano de Castilho da obra Fausto coloca que Fausto é figura histórica. Viveu na Alemanha no começo do século XVI, numa época das superstições mais estranhas, ganhando a vida exercendo a profissão de astrólogo e necromante. Existem documentos relativos à sua pessoa – recibos de pagamento por ter feito horóscopos e coisas assim – mas não deixou vestígio algum de grande sabedoria ou de qualquer obra notável. Por motivos que ignoramos cresceu em torno de Fausto uma lenda fabulosa de milagres que ele teria realizado, e disso uma criatura humana só é capaz, conforme as convicções da época, com a ajuda do diabo. Por volta de 1520, em plena Renascença, Fausto ainda é um mago admirável. Por volta de 1580, depois da vitória do protestantismo e na época das guerras de religião, Fausto já é transformado em famoso teólogo que, por meio de um pacto, vendeu a alma ao diabo para gozar os prazeres vergonhosos deste mundo e, tendo expirado o prazo, ser levado pelo demônio. As primeiras histórias contando os feitos de Fausto datam do século XVI, quando Johann Spiess escreveu “Faustbuch” (1587) e Cristopher Marlowe escreveu “A história trágica do doutor Fausto” (1592). Desde então a lenda de Fausto tem sido contada várias vezes e traduzida em diversas línguas. Além dos livros, ela tem inspirado filmes e óperas, fazendo de Fausto um dos heróis mais populares dos últimos 400 anos.
No livro Deus e o Diabo no Fausto de Goethe Haroldo de Campos coloca que o poeta alemão Johann Wolfgang Goethe escreveu entre 1770 e 1832 umas das mais sofisticadas versões da história de Fausto. Goethe iniciou o seu trabalho quando tinha 21 anos e só considerou concluído aos 62 anos. Nas versões mais primitivas do mito de Fausto, antes de Goethe, este personagem foi representado como um homem ambicioso que tinha vendido a sua alma para o diabo em troca de certos bens como dinheiro, sexo, fama e glória. No entanto, na obra de Goethe, Fausto possui um ideal mais nobre e altruístico, o sonho de libertar a humanidade do sofrimento e da dor. O personagem de Goethe é animado pelo sonho da modernização e do progresso, reunindo assim o ideal romântico de desenvolvimento com o ideal épico de uma nova ordem e de uma nova sociedade construídas a partir de nada, através do planejamento e da aplicação de uma racionalidade superior. A fim de criar o seu admirável mundo novo, Fausto vende a sua alma em troca do acesso irrestrito ao conhecimento, à racionalidade superior e à sabedoria.
A respeito da obra Fausto de Goethe Oto Maria Carpeaux comenta: “É a obra mais complexa do mundo, mistura incrível de todos os estilos, e isso se explica só pela maneira como foi escrita a obra, durante 60 anos, acompanhando e exprimindo todas as mudanças estilísticas e filosóficas dessa longa vida literária” (pág. 6 e 7). Com efeito, Fausto é a Divina Comédia dos tempos modernos. Goethe é o Dante Aligheri moderno. Assim como o grande florentino, o poeta alemão dispunha do saber enciclopédico da sua época, resumindo poeticamente todos os sentimentos e pensamentos do homem moderno – Dante, o herói invisível da Divina Comédia, resumira todos os sentimentos e pensamentos do homem medieval. Os alemães costumam ler o Fausto folheando comentários eruditos que lhes explicam as alusões científicas, citações disfarçadas, sentidos ocultos – e quanto mais comentários, tanto mais se estabelece a convicção geral: Fausto é uma obra muito difícil.'

Felipe dos Santos Matias
Graduando em Letras
Universidade Federal de Viçosa
lippem@yahoo.com
Querendo ler o trabalho de Felipe dos Santos Matias, "INTERTEXTUALIDADE: a presença da obra Fausto de Goethe no conto “A igreja do diabo” de Machado de Assis", na íntegra clica aquí.
Na revista digital 'A Criação' Fábio de Oliveira Ribeiro discorre mais especificamente sobre o Fausto histórico e 'arrisca' a idéia do Fausto autobiográfico em Goethe. Deveras? Clica aquí.

19.7.08

Kulturfest, Fausto em Salvador

Nos dias 18 e 19 de julho, o grupo alemão de teatro "Das Helmi" encena uma versão inovadora de Fausto de Goethe. Música ao vivo, mistura tragédia e comédia e reinventa a tradição de teatro de bonecos e do cabaré alemão, com a participação especial da cantora alemã Cora Frost e da atriz Isabella Parkinson.

"Sobre a montagem de Fausto:
Por um lado deve estar óbvio nesta encenação o aspecto tipicamente alemão do Fausto. Deve ficar nítido algo da preocupação, da fidalguia e do pecado original, do medo frente às mulheres. Por outro lado o enredo deve ser multicolorido, como um melodrama, como uma telenovela (Mefisto seduz Fausto, Fausto seduz Gretchen, Gretchen envenena sua mãe. Fausto esfaqueia o irmão dela. Gretchen afoga seu filho.) Um choque dialético de opostos pode servir como fonte de idéias : o teórico arrogante que se depara com a vida real , a Alemanha em confronto com o Brasil, o turista alemão com vigaristas brasileiros, o indivíduo racional com sua sexualidade reprimida, o Fausto provinciano e conservador com o Mefisto das ruas, o fanático pelas estruturas com o irresponsável. Também o capitalista com o ingênuo.Um espetáculo onde estaremos trabalhando com os estereótipos de ambas as culturas. Na música também a mixagem das culturas: canções alemãs [aquelas que se cantam nos bares e festas tradicionais da cerveja) aos ritmos do samba e pagodes. As invocações dos espíritos, "pontos" e canções de candomblé , capoeira da Angola e outras canções alemãs. O amor, em versões de famosas musicas românticas em alemão...Uma narrativa sem legendas, atrativa e compreensível para um público brasileiro, mas não ocultando ou negando a origem alemã, mas, ao contrário, destacando elementos e detalhes tipicamente alemães.Uma versão do Fausto de Goethe, com musica ao vivo, misturando tragédia e comédia, reinventando a tradição do Cabaré Alemão. Atores, bonecos e músicos, poesia e rock reinventando a mais tradicional e conhecida obra da literatura alemã."
Dia 19, sábado o grupo, "Das Helmi" apresenta, às 15h, o espetáculo infantil "O Príncipe Sapo", um dos clássicos dos Irmãos Grimm. "O príncipe sapo" do grupo "Das Helmi" é apaixonante, com muita música, bonecos e brincadeira.

O Das Helmi é um grupo de teatro que trabalha com atores e bonecos e desenvolveu desde 2002 - quando o grupo surgiu e fazia apresentações em uma praça de Berlin chamada Helmholtzplatz - uma forma e um estilo de trabalho muito especial e peculiar.Sempre trabalhando com música ao vivo, mais do que contar historias ou manipular com maestria bonecos, eles criam uma atmosfera bastante envolvente e cercada de uma grande energia e sempre apropriando-se de elementos da realidade que os cerca. No ano de 2007 o grupo Das Helmi ganhou no Impulse Festival o premio do "teatro livre da Alemanha".O grupo é formado por três integrantes: Florian Loycke, Brian Morrow e Emir Tebatebai.

Depois de Salvador, o Kulturfest Itinerante segue para Fortaleza, a partir do dia 23 de julho./

6.6.08

FESTIVAIS

retirado do "Boletín electrónico de la Comisión para América Latina de la Unima - Año 5 - n° 13 - Junio 2008"


IV FESTIVAL BRASÍLIA DE CULTURA POPULAR - 11 A 14 DE SETEMBRO
Inscrições abertas até dia 12 de julhoEnvie seu material: http://www.seuestrelo.blogspot.com


9º FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE BONECOS
O resultado das cias selecionadas para o 9º Festival Internacional de Teatro de Bonecos já está disponível no site: http://www.festivaldebonecos.com.br
O festival acontece de 31 de Maio a 8 de Junho de 2008 com a seguinte programação:Espetáculos nacionais, internacionais, oficinas, mesa-redonda, desfile de bonecões, lançamento de curta metragem de animação e lançamento de livros.Cias participantes:Cia Jordi Bertran, Cia Teatro Viaje Inmóvil( Ex Cia La tropa),Cia Philippe Genty, Cia El Chonchón, Cia Santa Rodilla e Tof Theatre (internacionais), Sobrevento, Pia Fraus, Zero Teatro de Bonecos, A caixa do elefante, Lumbra, Trip Teatro de Animação, Tato Criação Cênica, Teatro Portátil, Aldeia Teatro, Cia Matraca, Augusto Bonequeiro e Angela Escudeiro.Estudio Terpins/ Greco - Lançamento do curta metragem de animação " Batalha, a guerra do vinil" de Daniel Greco.A venda de ingressos a preços promocionais pela internet iniciam no dia 15: http://www.festivaldebonecos.com.br

II FITAFLORIPA - Festival Internacional de Teatro de Animação de Florianópolis
No ano passado a Cidade recebeu de braços abertos o 1º Fita, portanto, procuraremos repetir os feitos, construíndo novamente uma mostra de qualidade, da produção nacional e internacional desta linguagem.Nesta segunda edição o FITAFLORIPA terá como convidados 04 grupos internacionais (França,Chile, Bélgica e Hungria), 06 grupos nacionais (MG, PR, RJ, RS e SP) e 05 grupos catarinenses, em uma mostra do dia 18 ao dia 22 de junho do corrente ano.A primeira edição contou com a participação em massa da população, principalmente de escolas da rede pública e privada, criando demanda e expectativas para uma segunda edição.No total o Festival realizará seis tipos de atividades diferentes, com o objetivo de descentralizar suas ações e disseminar a linguagem, contando com mais de dez espaços diferentes de atuação (entre Teatros, ruas e espaços alternativos como Hospitais, Casas de Repouso e Orfanatos), em diferentes regiões da cidade.O Festival ainda prevê ações como Oficinas de formação na linguagem, Exposições e Mesas de debates, todas atividades abertas ao público em geral.
Para maiores informações acesse ao site: http://www.fitafloripa.com.brE venha nos visitar...voce vai adorar estar com a gente no FITAFLORIPA.Sassá MorettiCoordenadora Geralsassamoretti@hotmail.com

XVII FESTIVAL ESPETACULAR DE TEATRO DE BONECOS
Estamos com a programação do festival cheia de opções. Como sempre abriremos com desfile de bonecos gigantes, banda, pernas de pau e dois espetáculos de rua trazendo um "popular, mamulengo ZÉ DIVINA/PE com "MAMULENGO, RISO DO POVO e um erudito, GRUPO OIGALÊ/RS COM "NEGRINHO DO PASTOREIO".Mantemostambém uma programação na LONA, na BIBLIOTECA PÚBLICA, TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS, MINI AUDITÓRIO DO GUAÍRA E GUAIRINHA. Total de 40 apresentações.
Teremos também Congresso da ABTB - Centro UNIMA / Brasil, EXPOSIÇÕES ("Bonecas de Pano" da Denise Santos, "Marionetes de Lídice" e exposição interativa da APTB), OFICINAS (para crianças"Gigantes Imaginados" e para bonequeiros "Sombras") e também LAMBE-LAMBE da Bahia, Santa Catarina e Brasília. Tudo isso, esperamos confirmar.O Festival tem a Curadoria da APTB que este ano mais uma vez trouxe o apoio da ABTB/CUB. São conquistas que resgatamos e esperamos nossos companheiros saibam manter.É o que temos para o momento.Ruben Carvalho Silva-CauêPresidente da APRTB (APTB)


Agradecimentos a Susanita Freire, presidenta da Comissão para América Latina da UNIMA pelos boletins eletrônicos

comision.unima@gmail.com

4.4.08

Serra da Boa Esperança



Serra da Boa Esperança, esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança meu último bem
Parto levando saudades, saudades deixando
Murchas caídas na serra lá perto de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar,
Adeus.
Levo na minha cantiga a imagem da serra
Sei que Jesus não castiga o poeta que erra
Nós os poetas erramos, porque rimamos também
Os nossos olhos nos olhos de alguém que não vem
Serra da Boa Esperança não tenhas receio
Hei de guardar tua imagem com a graça de Deus
Oh minha serra eis a hora do adeus vou me embora
Deixo a luz do olhar no teu luar,
Adeus.

Lamartine Babo

17.3.08

Amor pelas ruínas

Os livros de Próspero. Livro XX:

"Um manual de antiquário, um inventário do mundo antigo para os humanistas da Renascença interessados em antigüidades. É repleto de mapas e planos dos lugares arqueológicos do mundo, como templos, cidades e portos, cemitérios e estradas antigas, contendo também as medidas de cem mil estátuas de Hermes, Vênus e Hércules, descrições de cada obelisco e pedestal do Mediterrâneo conhecido, planos das ruas de Tebas, Óstia e Atlântida, um diretório dos pertences de Sejanus, as lousas de Heráclito e as assinaturas de Pitágoras. É um volume essencial para o historiador melancólico que sabe que nada perdura. Suas proporções são como as de um bloco de pedra, quarenta por trinta e por vinte centímetros. A cor é de mármore azul estriado. Arenoso ao toque, tem páginas rijas e crespas, impressas em fontes clássicas que não possuem o W nem o J."

16.3.08

Repostagem de amor às ruínas

O Jardim Selvagem
Para Michel

Os igarapés parecem prender a noite dentro de seus espelhos. A negrura guarda a profundidade, a cobra monstruosa da perenidade. Minha infância é turvada do visgo, do lodo do remanso. A imaginação da criança amazônica é um manancial de assombrações tão prazerosas quanto terríveis. Lá o sol se mantém eternamente crivado pela copa das árvores, um sol inerme. O abismo das águas é o que me fustiga a imaginação de moleque-bicho.
O rio dos meus medos e brinquedos levou o meu irmão. Num lugar tão permeado de água não seria outro elemento a mais tragar a juventude. Ele foi lá e achou mais do que eu. Achou o termo e decidiu a própria sorte. Há tempos não choro, que estranha saudade essa de chorar. A maturidade me secou as lágrimas e assim, destituído de toda autopiedade, sou árido.
A intimidade com os monstros do rio era o esbarro do peixe boi na canoa fina, não mais que um graveto.
A casa do interior na minha infância era duas casas; uma noturna, uma diurna. A diurna quase não conhecíamos porque de dia as crianças ganham mundo, vão experimentar os medos das cacimbas, do rio, dos igarapés, da casa de farinha, do além da estrada que, como o fundo do quintal, era o próprio reino do perder-se pra sempre. Mais medo tínhamos do igapó. No igarapé era a mãe-d’água, jacaré, boiúna; mas no igapó era o sumidouro, águas sem fundo onde quem botasse o pé já era pra não mais voltar. Ficava ali perdido dentro d’água entre as raízes, ou afundava pra sempre, sempre afundando até perder o nome e virar o menino do igapó. O mais estranho nesse lugar do medo, o igapó, é que, quem cai ali não morre, vive ali, esquecido, sumido. Aqui em Salvador fiquei longe da morte do meu irmão. Foram-se dez anos sem que o visse. Agora está no fundo do rio. Minha aridez de estátua jacente deve seguir lamentando numa representação suspensa, eterna e sem lágrimas. Imagino sua sombra com um rosto adolescente mal iluminando o negrume do fundo do rio.

Artimanhas da Loba

Literatura Revolucionária
por Neuza Noronha

Ontem, pesquisando sobre literatura, dei de cara com um site que ensina, em 10 passos, a transformar um espaço qualquer em um blog literário. Achei tão divertida a coisa que resolvi tentar. Os primeiros passos ignorei. Segundo dizem, é de suprema importância não haver cores além do preto no branco. Isso eu pulo. Não abandonaria o meu vermelho nem por todo sonho de ser alguém na vida.
Os demais passos dizem respeito à escrita. Um blog literário tem que ser inovador. A linguagem deve ser revolucionária e a estrutura das frases, inusitada. Tem-se que escrever algo de forma que o significado não seja claro. Quanto mais dificil o entendimento do leitor, mais valor ele dará ao texto. Tudo deve começar pelo título. Ele precisa ser chamativo, mas hermético. Não se pode esquecer que a primeira impressão é a que fica. Então o título tem que ser bem pensado e bem elaborado. E o resto, dizer tudo sem necessariamente dizer alguma coisa.
Não sou dada a modismos, mas resolvi ser modeira por um dia. E lá fui eu fazer o texto hermético. Aproveitei o tema combinado com a Dorita e a minha vontade de dizer não-dizendo para testar a minha capacidade de ser uma literata!
Mas o teste é com você. Se você nada entender, estou no caminho certo. Então, não se aflija. Pode continuar sendo simpático, mas não precisa colocar uma lupa para decodificar as entrelinhas. O chique é você sair daqui com aquela sensação de que eu escrevo tão bem que você, mesmo ótimo leitor, não conseguiu me alcançar!
Vamos lá?

Carta-convite ao clandestino de mim

Perdi a cabeça na guilhotina. Os pés devem estar encostados nas nuvens. Não importa. Não quero saber em que me transformei. Quero ser o algo que deixou de pensar para apenas sentir. Uma coisa qualquer pendurada na linha que limita o bem e o mal. Quero apenas sentir esta coisa que vem de dentro marcando o compasso de uma música que apenas eu sei cantar. Perder-me indefinidamente nos porquês sem respostas e marcar sucessivos encontros comigo mesma. Esquecer compromissos e dar férias à vida que corre paralela ao meu desejo. E quando eu não me bastar, quero estar em você. Desligá-lo de si mesmo e conectá-lo nas minhas córneas. Olharemos ambos para o centro da nossa terra. Inventaremos o nosso cataclismo e viraremos chafariz. Jorraremos espumas no tempo e apagaremos as pegadas do relógio. Deixaremos de ser e passaremos a estar no encontro clandestino de cada um de nós. E numa composição atemporal criaremos o perfume de nós dois. Pelo tanto que durar o canto do nosso encanto.* * *

Beijos divertidos a quem conseguiu chegar até aqui! Seja otimista: valeu pela
lady day!

14.3.08

Ouroboros na cosmogonia cabocla

Os mais velhos contavam essa quando nós os miúdos nos mostrávamos curiosos demais, ingratos ou insatisfeitos pelo modo como são as coisas.



No começo não tinha noite.
Antes era sempre dia.
Todo mundo reclamava porque não tinha hora de descanso, não se podia dormir.
A cobra-grande guardava a noite escondida dentro de um caroço de tucumã. Ela morava na cabeceira do rio dentro do tronco de uma árvore.
A cobra grande tinha uma filha.
Um dia o filho do cacique quis casar com a filha da cobra-grande.
Ela mandou o caroço de tucumã para a filha; mandou três índios levarem o presente rio abaixo e disse a eles que não abrissem o coco.
Eles entraram na canoa e desceram o rio e no meio da viagem ficaram curiosos com os barulhos que podiam ouvir dentro do caroço de tucumã. Eram os barulhos da noite.
Eles tiraram a cera que fechava o caroço e de repente tudo ficou escuro. A noite tinha escapado de dentro do coco e não tinha mais dia.
Era só escuridão.
Os índios que estavam na canoa se perderam e viraram macacos da noite.
Quando tudo ficou escuro a cobra-grande soube que os índios tinham deixado a noite escapar de dentro do caroço de tucumã e resolveu deixar tudo assim mesmo que era para dar uma lição na humanidade.
E ficou sendo noite o tempo todo.
O povo da aldeia ficou preocupado, mas a filha da cobra-grande contou o que sabia sobre o caroço de tucumã onde sua mãe guardava a noite e resolveu subir o rio e pedir que guardasse a noite de novo porque o povo já não podia caçar nem pescar e tudo estava em confusão. A cobra-grande então resolveu que não ia fazer ficar sempre dia não, mas que ia fazer ficar um pouco dia e um pouco noite.
Foi assim e é como tem sido até hoje.

17.2.08

Boneco

"O boneco é esse objeto abjeto que para viver extrai vida do ator que assim, irremediavelmente, fica desprovido de si, dividido, quando não lhe rouba também a voz. O boneco é esse ser vil que sempre que pode, suga energia de quem dele se aproxima e o toca. Se deixado de lado, ou afastado de seu público, vinga-se criando à sua volta uma aura de mistério, de expectativas e espera. Abandonado, desvia o olhar para bem longe, escondendo segredos. Quase sempre grosseiro, canhestro, em meio à risos nos tira a realidade e logo a devolve, em caricaturas. Mas há também ocasiões que sabe se fazer de delicado - muito sutil - sugerindo um mundo que as crianças e os poetas logo percebem, um mundo que as palavras não tocam, fantasia concretizada."
Ana Maria Amaral

16.2.08

Casa de ossos

Sopra o pó dos ossos há muito empilhados nos armários
Ordena-os em pares e dá-lhes nomes
assim, etiquetados sob seus vínculos
saiba-os em sua profusão
Cunha também teu nome em cada um deles
e os de todos eles nos teus próprios
Firma de crânios as valas sobre as quais
os fêmures disporás em colunatas
Trançarás vértebras para paredes
e sobre o teto os cabelos imorredouros
não permitirão à chuva molhar teu chão de metatarsos
Erguida tua casa de ossos
hás de morar nela tua eternidade
em paz com teus crimes
agora inteiramente úteis em sua finalidade.

O Hotel Literário

(repostagem inoportuna)

A senhoria recolhe os diários dos quartos recém vagos e pretende construir seu próprio diário a partir da leitura deles. Infelizmente ainda está em branco, ela teme que a própria criatividade deturpe idéias originais.
No seu empreendimento é possível alugar um quarto onde se possa ler e escrever. Há salas de leitura para os que não desejam escrever ou para os que não se ressentem da influência ou não temem ressentir-se e estão felizes em manter alguma identidade. Não há camas, apenas cadeiras, poltronas, sofás, tamboretes. Há namoradeiras e bancos de praça para os que preferem a democracia dos corredores. As long-cheses estão lá, mas ninguém mais as usa. Quando solicitaram um genuflexório a novidade tornou-se um ‘hit’ entre os jovens. Há também banheiras, criados-mudos e penteadeiras, mas não há espelhos. As paredes são cegas de janelas e apesar deste detalhe não é um lugar que prima pela discrição. Os amplos portais recebem uma fina gaze a separar os quartos dos corredores.
Os visitantes regularmente voltam ao hotel e retomam seus escritos. Quem o visita pela primeira vez encontra um diário em branco sobre a penteadeira, canetas, lápis, mata-borrões, grampeadores, perfuradores. Estão proibidos corretores líquidos e borrachas. Por um acréscimo na diária poderá dispor de uma máquina de escrever ou um gravador. O visitante abastado deve requisitar o estenógrafo com antecedência. A senhoria tem muita dificuldade em encontrar estenógrafos, os que lhe oferecem serviços são, na verdade, críticos literários falidos.
Papeis há de todo tipo na recepção, pergaminho e papiro além de pincéis, bico de pena e matrizes tipográficas. Alguns visitantes preferem fabricar seu próprio papel e para isso existe uma cozinha com tudo o que se necessita para tal. A maioria dos visitantes prefere os singelos diários e esferográficas.
Há algum tempo um rapaz solicitou um quarto e uma máquina de escrever. Hoje deve beirar sessenta anos, mas não abandona seu nicho. A senhoria reconhece seu modo monótono de escrever em meio ao martelar de teclas da ala destinada aos que gostam de escrever à máquina. A senhoria tem predileção por esta ala. È o lugar mais organizado, pois ela desculpa sua presença constante inventando quefazeres ali. Ninguém se lembra, mas ela foi professora de teoria musical.
Os diários não podem sair do hotel, amontoam-se nas prateleiras e forram todas as paredes. Os que não foram assinados recebem uma encadernação vermelha, são os mais procurados. Os datados não possuem chanfradura e acumulam pó.
Ao lado esquerdo do Hotel Literário existe uma funerária.

OFICINA DE ANIMAÇÃO - Vencendo a inércia

Toda matéria tende à inércia e vencer continuamente a inércia é um dos trabalhos do animador.


Dez anos atrás nos reunimos para a formação da companhia A Roda em torno das propostas estéticas de Olga Gomes e seus bonecos de madeira. Não foi fácil adaptar a experiência anterior com materiais flexíveis e leves e o tipo de animação que propunham, baseada em criar um peso inexistente, um efeito de gravidade que tornasse crível o ânimo daquelas estruturas onde o esforço estava basicamente em ‘aterrissar’, a estes novos objetos em madeira que agora precisavam ser ‘levitados’. A atitude anterior de ‘levitar aterrissando’ passou a ser ‘aterrissar levitando’. O ganho com esta troca de esforço ainda surpreende e é motivo de contínua investigação. Um dos ganhos (acredito o mais importante) é o da qualidade de concentração. Mover um objeto pesado (e articulado!) exige de forma definitiva, e até impositiva, uma grande concentração.


Instintivamente um nível maior de concentração é necessário para ‘não deixar cair’ um objeto pesado. O animador, consciente do seu objeto, e a qualidade dos gestos que venha a imprimir se beneficiam muito deste tipo de contenção. Resulta que a energia criativa para o gesto é pouco desperdiçada.

Os mecanismos para se alcançar um nível interessante de concentração para determinado exercício são totalmente pessoais. Entre as tarefas que assumi na oficina está a de fazer com que cada um tivesse a oportunidade de perceber em que nível de concentração se encontra, de entender quais são seus mecanismos de concentração (e também de dispersão) a partir de exercícios lúdicos com objetos que seriam ‘lançados-agarrados’ ou ‘transferidos-recuperados’.


Parti do pressuposto de que os significados que os bonecos e objetos construídos por Olga Gomes agregam, e suas especificidades, poderiam ser um entrave para a percepção do que ocorre na atitude do animador. A riqueza destes conteúdos e a estranheza de bonecos tão diferentes entre si gerariam uma dispersão improdutiva para tratar de concentração e consciência corporal num primeiro momento. É muito difícil ver um boneco e não se colocar imediatamente na atitude passiva de espectador.


Decidi que os objetos para tais exercícios deveriam ser igualmente básicos e limitados, facilmente controláveis e reconhecíveis e de manuseio previamente experimentado por qualquer um na oficina: bolas e bastões. Pretendo estender as considerações sobre os exercícios com estes objetos, mas vou destacar um exemplo:
No exercício muito simples em que uma grande roda é formada com todos voltados para dentro concentrados na bola que seguram com ambas as mãos, fazê-la quicar com a freqüência que se estabelece pelo modo como se alterna esse movimento entre os participantes, promove a percepção do nível pessoal de concentração e a utilização imprescindível da visão periférica utilizada apenas instintivamente em situações cotidianas (É importante desenvolver este campo da visão para reagir e planejar o conjunto de ações sem que o espectador perceba que intenções serão impressas no objeto). Variações cada vez mais complexas deste exercício agregam valores cada vez mais complexos.

A repetição dos gestos necessários para a ação normalmente os torna mecânicos, deixando espaço na mente do animador para ampliar sua sutileza e seus significados. No entanto se a concentração não se mantém a mecanização não será produtiva tornando qualquer gesto banal. São colocações bastante óbvias, mas por óbvias não as considero desprezíveis.

A matéria da animação é justamente a condução de conteúdos e como eles passeiam entre o óbvio e o oculto. Sendo o teatro de animação também um prazer estético o que está obviado deverá ser constantemente posto à prova.

A transcrição dos trabalhos na oficina me parece necessária mesmo sabendo que estará sempre aquém do que realmente ocorre.
Não existe uma metodologia para o teatro de animação, pelo menos não uma metodologia definitiva. Mesmo um pequeno recorte (como no caso: manipulação direta com bonecos de madeira) apresenta um universo de possibilidades impossível de ser contido e constitui um dos segredos do que o mantém como algo interessante de ser exercitado e investigado. De qualquer forma é muito triste esgotar um assunto. Seria isso realizar uma obra?
Em 1972, em seu ‘Decameron’, Píer Paolo Passolini indaga: “Por que realizar uma obra se é tão belo apenas sonhá-la?” E aqui me parece haver um temor pelo destino daquilo que se constitui.


Espero continuar arriscando fazer estas considerações a respeito de nossa oficina e que disso tire algum proveito quem delas se aproximar.
Os trabalhos diários foram divididos em: aquecimento, dinâmica de grupo (com estes exercícios de auto-persepção e avaliação básica do gesto e concentração exigida para ele), trabalho com os bonecos construídos por Olga (o objeto do estudo de animação que qualifica especificamente a oficina), conversas e avaliações no final de um turno de quatro horas. Ainda temos pela frente três semanas que esperamos serem suficientes para apresentar esquetes interessantes como resultado.

OFICINA NO YOUTUBE

Oficina de animação 1

Oficina de animação 2

Oficina de animação 3

12.2.08

Lista das coisas que me emocionam isoladas e em seu conjunto

repostagem redefinida e talvez infinda




Um quintal silencioso e coberto de sombras tristes no final da tarde.
Olhar por sobre os três muros dos meus limites outros três tristes quintais.

Tudo o que respeita a tristeza e o silêncio do final da tarde.

Conversas sussurradas e distantes sem pressa de estar em outro lugar.
Tudo o que é feito sem o tempo.

Um jardim descuidado onde as folhas se acumulam.
Uma folha amarela pousada em qualquer lugar, dignificando-o.


Rostos de leões nos frontispícios num eterno rugir de alvenaria.

O barulho das cigarras.
O tilic-tic dos bilrros de minha avó pela manhã, os mistérios gozozos entre seus dedos ás seis da tarde.
Chuva e o avião que passa na madrugada.
Barulho de amassar o papel fino da carta inacabada.


Escadas estreitas de madeira.

Sentar nos seus degraus.

Desde o telhado, atraves de uma clarabóia, ver uma pessoa dormindo coberta de chenil.

Chão de madeira recém encerado com cera vermelha.

O cheiro da cera vermelha.
Passar entre as contas de vidro da cortina que mistifica a cozinha.
Bibelôs de louça com cores doces sobre móveis de madeira escura.

Vê-los pela janela desde aquí fora.

Saber que vai chover logo mais à noite.
Abrir o livro novo.
O olhar de quem acabou de fechar um livro.



Escrever listas de coisas percebidas enquanto vivas.

11.2.08

As Origens do Cinema

primeira parte


segunda parte


Primeiro capítulo do livro-DVD: O MUNDO MÁGICO DO CINEMA de JOSÉ NELSON, dividido em duas partes, aborda a projeção de sombras desde a pré-história até os sofisticados espetáculos do Chat Noir de Paris.
www.jose-nelson.com
ORKUT - JOSÉ NELSON: http://www.orkut.com/Community.aspx?c...