
Dez anos atrás nos reunimos para a formação da companhia A Roda em torno das propostas estéticas de Olga Gomes e seus bonecos de madeira. Não foi fácil adaptar a experiência anterior com materiais flexíveis e leves e o tipo de animação que propunham, baseada em criar um peso inexistente, um efeito de gravidade que tornasse crível o ânimo daquelas estruturas onde o esforço estava basicamente em ‘aterrissar’, a estes novos objetos em madeira que agora precisavam ser ‘levitados’. A atitude anterior de ‘levitar aterrissando’ passou a ser ‘aterrissar levitando’. O ganho com esta troca de esforço ainda surpreende e é motivo de contínua investigação. Um dos ganhos (acredito o mais importante) é o da qualidade de concentração. Mover um objeto pesado (e articulado!) exige de forma definitiva, e até impositiva, uma grande concentração.
Instintivamente um nível maior de concentração é necessário para ‘não deixar cair’ um objeto pesado. O animador, consciente do seu objeto, e a qualidade dos gestos que venha a imprimir se beneficiam muito deste tipo de contenção. Resulta que a energia criativa para o gesto é pouco desperdiçada.
Os mecanismos para se alcançar um nível interessante de concentração para determinado exercício são totalmente pessoais. Entre as tarefas que assumi na oficina está a de fazer com que cada um tivesse a oportunidade de perceber em que nível de concentração se encontra, de entender quais são seus mecanismos de concentração (e também de dispersão) a partir de exercícios lúdicos com objetos que seriam ‘lançados-agarrados’ ou ‘transferidos-recuperados’.
Parti do pressuposto de que os significados que os bonecos e objetos construídos por Olga Gomes agregam, e suas especificidades, poderiam ser um entrave para a percepção do que ocorre na atitude do animador. A riqueza destes conteúdos e a estranheza de bonecos tão diferentes entre si gerariam uma dispersão improdutiva para tratar de concentração e consciência corporal num primeiro momento. É muito difícil ver um boneco e não se colocar imediatamente na atitude passiva de espectador.
Decidi que os objetos para tais exercícios deveriam ser igualmente básicos e limitados, facilmente controláveis e reconhecíveis e de manuseio previamente experimentado por qualquer um na oficina: bolas e bastões. Pretendo estender as considerações sobre os exercícios com estes objetos, mas vou destacar um exemplo:
No exercício muito simples em que uma grande roda é formada com todos voltados para dentro concentrados na bola que seguram com ambas as mãos, fazê-la quicar com a freqüência que se estabelece pelo modo como se alterna esse movimento entre os participantes, promove a percepção do nível pessoal de concentração e a utilização imprescindível da visão periférica utilizada apenas instintivamente em situações cotidianas (É importante desenvolver este campo da visão para reagir e planejar o conjunto de ações sem que o espectador perceba que intenções serão impressas no objeto). Variações cada vez mais complexas deste exercício agregam valores cada vez mais complexos.
A repetição dos gestos necessários para a ação normalmente os torna mecânicos, deixando espaço na mente do animador para ampliar sua sutileza e seus significados. No entanto se a concentração não se mantém a mecanização não será produtiva tornando qualquer gesto banal. São colocações bastante óbvias, mas por óbvias não as considero desprezíveis.
A matéria da animação é justamente a condução de conteúdos e como eles passeiam entre o óbvio e o oculto. Sendo o teatro de animação também um prazer estético o que está obviado deverá ser constantemente posto à prova.
A transcrição dos trabalhos na oficina me parece necessária mesmo sabendo que estará sempre aquém do que realmente ocorre.
Não existe uma metodologia para o teatro de animação, pelo menos não uma metodologia definitiva. Mesmo um pequeno recorte (como no caso: manipulação direta com bonecos de madeira) apresenta um universo de possibilidades impossível de ser contido e constitui um dos segredos do que o mantém como algo interessante de ser exercitado e investigado. De qualquer forma é muito triste esgotar um assunto. Seria isso realizar uma obra?
Em 1972, em seu ‘Decameron’, Píer Paolo Passolini indaga: “Por que realizar uma obra se é tão belo apenas sonhá-la?” E aqui me parece haver um temor pelo destino daquilo que se constitui.
Espero continuar arriscando fazer estas considerações a respeito de nossa oficina e que disso tire algum proveito quem delas se aproximar.
Os trabalhos diários foram divididos em: aquecimento, dinâmica de grupo (com estes exercícios de auto-persepção e avaliação básica do gesto e concentração exigida para ele), trabalho com os bonecos construídos por Olga (o objeto do estudo de animação que qualifica especificamente a oficina), conversas e avaliações no final de um turno de quatro horas. Ainda temos pela frente três semanas que esperamos serem suficientes para apresentar esquetes interessantes como resultado.
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