28.5.07

Ensaios híbridos



Viste a baleia viva
no vivo sonho
Leviatã de barbatana espadanando a sopa primordial no mar de antanho
Berço-mor lápide da criação
Viste o patriarca ensimesmado
Observando o cachalote a mugir seu canto de amor à vida.





Nesse ir e vir de oceano
na sua antiga decisão de possuir a terra
Guarda-la como dantes em seu segredo abissal
Sou também a terra
A mais nova terra de sua sopa recém elaborada
O sal dessas lágrimas me diz, fui oceano!
Fui leviatã no encalço de sua firmeza
Adaptando construí o desejo da terra.

Insatisfeito contemplei o firmamento.




Não te cansas de olhar
O imutável mas inquieto mar antediluviano.
Que brinca de ser nuvem, de ser chuva, de ser mar de novo.Pra te encantar e reaver o sal do teu corpo.








Somos destroços de antigos naufrágios. Vagas aglomeram-nos nestas regiões abissais onde se soldam aos mecânicos os orgânicos em ensaios híbridos terríficos. Usinas metamórficas do abismo



Segunda imagem: 'Victorin prenant son vol' do livro de Nicolas Edmé Rétif ou Rétif de la Bretonne 'Découvert Australe par un Homme Volant ou Le Dédale Français' de 1781
Terceira imagem: 'Ideal view of marine life in the Carboniferous Period' de Louis Figuier no livro 'The Woerd Before the Deluge'
Não foi possível saber as referências da primeira e da última imagem.

17.4.07

O mundo estranho


Essa é a concha partida
que preserva a lembrança de quando não me contive
essa areia que arremeda úmida uma antiga concisão constrói desconstruindo
a morada que hoje me abriga
libertar-me foi perder-me
fere-me os pés essa praia de conchas quebradas
livre de traduções alheias não há nácar que me reflita e vivo no opalescer de nada me constatar existindo
sem contenções espráio-me indefinido
sou um eterno regurgitar de bolhas na espuma
minha história contei ferindo a areia
nada sobrevive à contingência das marés
A imagem é uma pintura de
Gustave Courbet intitulada
'A origem do mundo'

12.4.07

Mapinguarí

Foi enternecedor resgatar o conto da postagem anterior escrito já a dez anos. Entre as boas lembranças que me vieram ao revisitá-lo está a dos encontros de volta às aulas com Joaquim Castro, um amigo de adolescência e ginásio no Intituto Catarina Labourè de Belém, que se maravilhava com as estórias que eu trazia do interior, assimiladas dos mais velhos nas noites das férias de dezembro iluminadas à lamparina quando nós meninos, já aboletados em nossas redes, éramos ninados pelas conversas vindas desde a cozinha junto com o cheiro de carvão e café. Joaquim tinha uma imaginação exuberante, era um prazer narrar-lhe os causos que me entranhavam na mente tão vivos porque contados, ouvidos e recontados com muita fé. Obviamente já não sou tão crédulo e é provável que este meu amigo já não o seja também, mas algo permanece daquela alma sôfrega que ainda me atira, cheio de prontidão, diante de uma conversa ao pé do fogão ou de um bom livro.
Joaquim e eu misturávamos tudo. Tudo fazia parte de tudo e éra-nos possível ver referência de lendas indígenas em Júlio Verne e na mitologia grega tratada por Monteiro Lobato em Os doze trabalhos de Hércules. Marcopolo e Erich von Daniken nos faziam duvidar e acreditar ao mesmo tempo.
Hoje me veio a curiosidade de procurar no Google sobre o Mapinguarí, o ser monstruoso que habita o imaginário dos índios e caboclos e sobre o qual trata o pequeno conto da postagem anterior. Nada encontrei que pudesse somar. Tudo é muito cômico e coberto do ranço pretensioso de enciclopédias baratas. Tudo reduzido ao folclórico superficializado que deve fazer tinir os ossos de Câmara Cascudo e contra o qual acredito ter lutado Ariano Suassuna e a turma do movimento armorial.
Não sei se é possível escrever sobre algo sem referências emocionais. Talvez seja um virtuosismo ocultar estas referências.

8.4.07

Onde tudo se perde

Embaixo o negrume insondável.
Aquele galho era agora todo o seu mundo, única coisa existente a salvá-lo do horror sob si. Não que pudesse sequer olhar, que o negrume se olha sem olhar. O negrume começa por dentro, destemperando a alma, enfraquecendo músculos, tornando tudo a volta parte do pesadelo. O nome do horror teimava-lhe na mente. Queria evita-lo, evitar o nome, era aquilo, a coisa, o sem-nome, o horror. Mal se sustinha no galho, os dedos dormentes, um cansaço de horas. O galho que sabia frágil. O horror movia-se irritado. Como não pudera sentir-lhe o cheiro antes? O horror exalava odores que suscitavam imagens repugnantes de pêlo molhado, de lodo, de azedo de coisa podre. Imaginava a bocarra aberta na barriga exalando aquele cheiro, pronto pra lhe engolir inteiro caso aquele galho não mais lhe suportasse o peso. Vinham-lhe os medos da infância, do que se contava, que a coisa te engolia inteiro e tu não morrias não! Ia vivendo nas entranhas.
O rio estava perto, e se pulasse na água? Ficando era certa a morte, ou pior. A árvore tremia, imaginava as garras do horror cada vez mais perto; ouvia a casca da árvore se soltando. Arriscaria pular nagua, não tinha outro jeito, era assim. Preparou o pulo, precisava cair o mais longe possível da árvore, queria saber com mais certeza de que lado pular, o cheiro do horror lhe embotava a mente, o timbó do horror. Botava o nariz lá pro alto a ver o cheiro da água. Sentiu o musgo na árvore, resolveu pular pro lado que o musgo cresce. Lascas da casca da árvore já lhe atingiam o rosto. O horror bem perto do seu calcanhar, o cheiro. Soltou as mãos, impulsionou com as pernas e foi cair longe no igarapé, os galhos sob a água lhe arranhavam, prendiam, e ele só imaginava as garras longas do horror lhe alcançando a pele. Nadou com espadanar furioso, do outro lado agarrou as raízes do mangue. O grito do horror lhe veio alma adentro, um silvo agudo, triste, uivo de maldição. Aliviou-se ouvindo longe o grito, mas já o desespero apertou-lhe a garganta quando um corpo pesado quebrou o espelho dágua vindo-lhe ao encalço, desatou carreira no mato até perder os sentidos.
Depois que o trouxeram passaram dias até não mais ver bicho quando olhava gente; ainda assim de noite com tudo se assustava e dava de se debater e gritar. Os pequenos apanhavam dele e perdiam seus apitos.
Ficou mais de mês empanemado. Todo mundo sabia que mais cedo ou mais tarde ele ia falar. Não era o primeiro a voltar do mato assombrado. Ficou de resguardo que nem mulher prenhe. Dormia o dia todo e de noite fazia vigília. Sempre tinha um ou dois a acompanhar sua insônia. Aumentavam o fogo e pitavam sentados nos tamboretes. Numa dessas noites começou a desatar a língua. Era assim: uma palavra, um silêncio, outra palavra; talvez com medo de atrair o bicho, de que a memória do horror viesse toda de vez. Os outros ninguém não dizia nada, só escutavam. E quando ele silenciava era possível imaginar a outra parte da história naqueles olhos vidrados em direção à copa das árvores, como se através delas, lá longe, na cabeceira do rio, visse o horror em meio ao negrume, pensando nele. Quando o mato silenciava ficava de butuca, apurando o ouvido, espreitando o grito assobiado do bicho. Mas era só ouvir pássaro, grilo que ele sossegava, baixava as pálpebras aliviado. Se o horror estivesse por perto não haveria som nenhum, só o estalar de galhos.
Nunca mais saiu pra pescar sozinho, quando ia já queria voltar no chiar da cigarra.
Menino não teve que deixou de ouvir na beira da noite essa história, mesmo depois, homens feitos, pegavam seus tamboretes e se chegavam pra perto dele quando acendia seu cachimbo. A cada noite havia um jeito novo de contar, sempre evitando o nome do bicho. Subiam-lhes os pelos da nuca se ele calava de olhos duros lá pro lado do mato encolhendo-se no tamborete como se de novo encarapitado no galho daquela árvore, balbuciando que Ele estava lá longe, esperando.
Uma noite que não tinha ninguém a querer lhe fazer companhia, sumiu. Deixou o cachimbo sobre o tamborete. Perdeu-se no mato. Nunca acertou o juízo, ou foi bicho que lhe veio buscar.





'Perro semihundido' 1820 / 21, Museu do Prado, Madrid


A cabeça aflita de um cão em meio a aridez. É preciso ter cuidado com vítimas encurraladas. Gosto muito das pinturas negras de Goya, na verdade, para ser mais preciso e talvez didático, a pintura dele a ilustrar essa postagem deveria ser 'Saturno devorando a un hijo' mas o 'Perro' é mais sutil e igualmente aterrador. Por enquanto é possível ver grande parte de seu trabalho em gravuras no MASP até 20 de maio

5.4.07

O Homem Pálido


Uma imaginativa e profunda personagem criada para o filme 'O Labirinto do Fauno' de Guilhermo del Toro, crítica aguda à Igreja. O terror que causa, pelo menos a mim, vem da lembrança da brincadeira que os adultos fazem de esconder os olhos para fingir não ver a criança. O filme é um conto de fadas eficiente e cruel, como toda criança, como todo conto de fadas deve ser.
Para quem não assistiu e quer conhecer um pouco antes de se aventurar em pesadelos atávicos este á o site oficial http://www.panslabyrinth.com/ .

25.3.07

Matintaperera

Dentre os seres encantados que assombraram a minha infância são os aéreos os que ainda me fermentam a imaginação. Destas assombrações a mais temida é a matintaperera. Assoprando um apito de osso humano ela se anuncia sobre os telheiros agourando os viventes. Voa num vento enfeitiçado que a alça pelas vestes de sarrapilha. Pode também se metamorfosear em pássaro. Para faze-la cair de seu vôo fecha-se fortemente uma tesoura a sua passagem. Se algum caboclo dorme na rede atada na varanda a matintaperera cospe o fumo que masca em sua boca e o infeliz seca até a morte.
A matintaperera é qualquer mulher velha que alguma maldição obriga toda noite a visitar sete cemitérios equilibrando uma lamparina acesa na cabeça. Durante o dia desconhece sua sina. Quando à noite se ouve seu assobio é preciso desenhar ao terreiro uma estrela de cinco pontas para mantê-la distante. Querendo descobrir quem vira matintaperera é preciso fazer o seguinte: de noite quando ela passar sobre a casa assobiando é só gritar ‘matinta vem buscar fumo!’. No outro dia a velha inocentemente vem pedir fumo revelando seu fado. Não se sabe como desencantar matintaperera.
Ouve-se contar que certo grupo de estudantes soube que havia matintaperera no bairro e decidiu pagá-la em tocaia. Aboletaram-se na beira da estrada perto de um cemitério por várias noites até que a viram chegar e num susto prenderam-lhe as mãos para que não chamasse o vento. Retirando-lhe os cabelos da face descobriram tratar-se da mãe de um deles.
Quando matinta pressente sua morte sai pela estrada apregoando ‘Quem quer?’ e aquela que disser ‘eu, eu quero!’ toma para si o fado.

Resgatando meus velhos escritos decidi investigar e descobrí equívocos diversos de pessoas alheias à vivência nativa com este ente. Muitos associam-na às bruxas européias, ao saci-pererê, aos duendes protetores da floresta e aos vampiros. Mesmo nas capitais nortistas é possível encontrar tais associações exóticas. Não consigo ver qualquer semelhança. Alguns dizem-na feiticeira, mas nunca ouvi tal coisa junto ao povo. Matinta não faz feitiços, só cumpre sua sina, está, nesse sentido, muito mais próxima do lobisomem. Os relatos que ouvi e minha experiência na vida de sítio do interior do Pará atestam o que afirmo. Confundem-na com o rasga-mortalha, uma coruja cujo grito lembra um pano sendo rasgado e que, ao ser ouvido, prenuncia morte na família.
Velhas morando sozinhas em choças no fundo do mato me foram apontadas como sendo matintaperera. Eu e meus primos chegamos a visitar uma delas quando os adultos nos mandaram buscar fogo. Era manhã, o ar ainda úmido de sereno. Por uma picada estreita varamos o mato até uma clareira onde se erguia a pequena casa de tabique, as samambaias nos molhando as pernas. Um pano encardido fazia vezes de porta, dentro o cheiro de fumo e peixe tornava o ambiente estranhamente acolhedor. ’A vó mandou pedir fogo.’ Ela não disse palavra, só pegou do fogão de barro um tição e nos entregou sem nos olhar na cara. Saímos rápido sem nem agradecer porque é vergonhoso pedir fogo, é como admitir desleixo. Só quando chegamos em casa é que os adultos nos contaram ser ela matintaperera. Era assim, o medo, o receio, os perigos relativos; real e imaginário indistintos. O imaginário ( se for possível dissociá-lo da fantasia) não é escapismo, mas uma forma eficiente de existir.


Matintaperera
Chegou na clareira
E logo silvou,
No fundo do quarto,
Manduca Torcato
De medo gelou
Matinta quer fumo
quer fumo migado,
meloso, melado,
que dê muito sumo...
Torcato não pita,
não masca nem cheira.
Matintaperera vai tê-la bonita...
Matintaperera,
de tardinha vem buscar
o tabaco que ontem à noite
eu prometi,
queira Deus ela não venha me agoniar,
Ah! Matinta, preta velha, mãe-maluca,
pé de pato.
queira Deus ela não venha me agoniar......
Matintaperera
chegou na clareira
e logo silvou.
No fundo do quarto
Manduca Torcato
de medo gelou.
Que noite infernal,
soaram gemidos,
resmungos, bulidos,
do gênio do mal...
E, até amanhã,
bem perto da choça
a fúnebre troça
dum vesgo acauã
acauã...acauã...
Waldemar Henrique
Música de Waldemar Henrique, letra de Antônio Tavernard

(Matintaperera, Matinta Pereira, Mati-taperê, Matim-taperê, Titinta-pereira, Mat-Taperê, do Tupi - matintape're).

8.3.07

A Carcomida


A idade diminuiu-lhe as proporções, o tempo retirou-lhe o sumo e vive assim como fruta-passa. Na sua vegetabilidade a água que toma é a que lhe oferecem. De tão gastas as papilas pela pimenta e o sal que lhe maquiaram a fome não lhe importa o mesmo mingau de todos os dias. Traz um olhar baço de idéias, coleciona memórias galantes que outros viveram celebrando o lucro parco nelas mendigado. Quando esboça um desejo é sem pedir nada do tanto que nunca recebeu.
Quase não lhe sobrou nada de humano. Perdida em anacronismos generalizados imagina-se viva.
Não lembra de já ter chorado nem rido.
As roupas mal lhe poupam dos tremores dos quais se envergonha.
Há muito não cruza o portão para a rua.

Tateia as coisas buscando o que é firme e cotidiano. O significado de tudo a sua volta reduziu-se à funcionalidade de apoios e bengalas.
Seus guardados não lhe significam nada.

Guarda de tudo.

Guarda caixas de fósforos recheadas de besouros. Guarda lâminas que barbearam um marido que, de tão ausente, não lhe fez falta ao morrer. Guarda papeis de presentes que outros receberam. Guarda pedaços de barbante que nunca amarrarão nada. As pilhas gastas do rádio que há muito não funciona estão ali colecionadas no canto inferior de uma estante que nunca viu livros.

Qualquer um que a vir se regozijará da própria juventude. Duvidarão de seus méritos os que a conhecerem.



'Misterio e melancolia de uma rua' (1914), de Giorgio de Chirico

Esse quadro tão árido e cheio de potencialidade terrificante já me deliciava na infância quando o vi pela primeira vez em uma enciclopédia. A única figura que me desagrada é a menina com o aro, vítima demais, apelativa demais, pelo menos até onde posso compreender sua presença.

O artista, criador da Pintura Metafísica, apresenta em suas telas um mundo aparentemente irreal envolvido por espaços urbanos vazios, desabitados e banhados de uma luz fria. Ilustrou livros dos poetas surrealistas Jean Cocteau e Paul Éluard. Obviamente realizou outras coisas.

1.3.07


Os igarapés parecem prender a noite dentro de seus espelhos. A negrura guarda a profundidade, a cobra monstruosa da perenidade. Minha infância é turvada do visgo, do lodo do remanso. A imaginação da criança amazônica é um manancial de assombrações tão prazerosas quanto terríveis. Lá o sol se mantém eternamente crivado pela copa das árvores, um sol inerme.

O abismo das águas é o que me fustiga a imaginação de moleque-bicho.
O rio dos meus medos e brinquedos levou o meu irmão. Num lugar tão permeado de água não seria outro elemento a mais tragar a juventude. Ele foi lá e achou mais do que eu. Achou o termo e decidiu a própria sorte. Há tempos não choro, que estranha saudade essa de chorar. A maturidade me secou as lágrimas e assim, destituído de toda autopiedade, sou árido.
A intimidade com os monstros do rio era o esbarro do peixe boi na canoa fina, não mais que um graveto.

A casa do interior na minha infância eram duas casas; uma noturna, uma diurna. A diurna quase não conhecíamos porque de dia as crianças ganham mundo, vão experimentar os medos das cacimbas, do rio, dos igarapés, da casa de farinha, do além da estrada que, como o fundo do quintal, era o próprio reino do perder-se pra sempre. Mais medo tínhamos do igapó. No igarapé era a mãe-d’água, jacaré, boiúna; mas no igapó era o sumidouro, águas sem fundo onde quem botasse o pé já era pra não mais voltar. Ficava ali perdido dentro d’água entre as raízes, ou afundava pra sempre, sempre afundando até perder o nome e virar o menino do igapó. O mais estranho nesse lugar do medo, o igapó, é que, quem cai ali não morre, vive ali, esquecido, sumido. Aqui em Salvador fiquei longe da morte do meu irmão. Foram-se dez anos sem que o visse. Agora está no fundo do rio.
Minha aridez de estátua jacente deve seguir lamentando numa representação suspensa, eterna e sem lágrimas. Imagino sua sombra com um rosto ainda adolescente mal iluminando o negrume do fundo do rio.




27.2.07

Aquí onde tudo silencia




A alma é o pássaro de asa quebrada nua de penas.
Seu canto ecoa sem destino, reverbera nas rochas
a resposta presumida na pergunta que não questiona.
Não voltará para casa. Seu ninho, o vento espatifou
Dos mil gravetos catados preciosamente
Resta esse, agudo, no qual espera ver brotar algo verde.
Permanece sépia, pois é de memória que se constitui.

15.2.07

"...num oceano de brumas dividido entre a divina loucura e o amor transbordante."

"No princípio era o escuro vazio do sem nome e só o medo campeava no silêncio da treva."

http://vimeo.com/46956050

"Este, o que move a roda escura dos dias, dos teus dias."
"Que fina erosão esculpe meus sentidos."


"É da fêmea os abismos e as obscuras forças da terra, é da fêmea o segredo da chuva, do sêmen e o sal da colheita."

" Por que falar do amor, esse eterno suplício, mão que tateia a ausência de outra face?"


"O medo é o que me prende ao chão."



"As volutas de um buzio capturam o infinito e o horizonte é um círculo que, rápido, se fecha."


"Nenhuma presença é mais real que a falta e a solidão me curva como um arco."


"Como é doce o ruflar de asas na garganta
como é doce o roçar de penas no pescoço
o sonido do vôo
o sibilo da flecha(...)"

"Seguiremos juntos, teus dedos como setas apontam meu destino."



Amor e Loucura
direção artística e bonecos
olga gomes
manipulação
fábio pinheiro
marcus sampaio
olga gomez
stella carrozzo
roteiro original
grupo a roda
poemas e voz
myriam fraga
direção de cena
grupo a roda
rino carvalho
cenografia e figurino
fábio pinheiro
olga gomez
direção musical e execução da trilha
uibitu smetak
Espetáculo contemplado pelo
Prêmio Montagem de Médio Porte da Fundação Cultural do Estado da Bahía e pelo
Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz com patrocínio da Petrobras


nesta postagem:
fotografias de luiz felipe
trechos dos poemas de myriam fraga

9.2.07

FUGIT, DUM ASPICIS

Ela escapa enquanto a fitas


Para fazer nascer e destruir bolhas de sabão.
Que não se comprimem além do tanto do sopro.
E não se expandem além do existido.

Margens da verdade das coisas frágeis.

A efemeridade da existência destrói qualquer desejo de amar coisas que permaneçam. As coisas perecíveis são comoventes. Estas coisas que, sem qualquer outra pretensão, são plenamente existidas em sua passagem. Será possível existir sem a carga da função? O pesado véu que nos oprime em toda estética relacionada à morte não seria, em suma, o peso da função? Concordo, e me parece irremediável concordar que todo gesto é um gesto em relação ao outro, conclusão aterradora se tomamos a liberdade como bem maior. Esta busca, essa angústia por permanecer, por manter uma função em relação ao outro, não nos tira, também irremediavelmente, a liberdade?

Buscamos todo tempo, em todo gesto, imprimir um simulacro do que acreditamos ser (ou do que, pelo menos, queremos que acreditem que somos) na memória do outro, algo que nos faça significar, nunca nos basta significarmo-nos a nós mesmos.

Tensões internas e externas fazem a bolha de sabão existir, falta-lhe consciência para se regozijar do quão pouco precisa para existir e para lamentar suas opressões.

Toda criança tem um encantamento especial por bolhas de sabão, encantamento que certamente se estende por toda a vida. Não há nada que substitua o prazer de ver uma bolha de sabão surgir, flanar e desintegrar-se para nunca mais.


OMNIA SOMNIA

Tudo é sonho

25.1.07

A terceira hybris

Descobri a vertigem no embalar da rede. Os pés golpeando a parede para vôos mais e mais altos. As cordas torcidas rangendo modorrentas como os liames de um navio assombrado. Velas depostas porque nada as enfunava. Depois o sono me sedando os impulsos quando o último me entregava ao balanço de voltas cada vez mais curtas até a inércia. À cavilação solitária preferia o sono; o timão livre girando ao prazer das ondas. Era quando ela vinha.
Na minha infância tinha asas.Espreitava desde os caibros suspensos em tramas a sustentar o palheiro ou do cimo da gameleira onde engendrava seus feitiços. Era ela que me pesava as pálpebras e dos músculos das mãos me tirava o tônus; as plumas acariciando meus olhos fechados. Assediava meu sono sedenta de minhas poluções. Nunca a vi, mas suspeitava-lhe fitando-me com um olho de cada vez. Vivia em sobressaltos: de dia um movimento de copa de árvore, uma lufada quente, um redemoinho, de noite os sustos eram o dardejar dos morcegos, dos pombos, das mariposas no fundo da noite em meio ao ressonar dos vivos. Trilava, titilava, guinchava pesando-me sobre o peito até que eu sufocasse e num grito surdo saltasse do fundo de minha queda até a vigília. Os olhos cravos no nada, no tudo. Os lábios ressecados ainda sentiam-lhe o sopro.
Depois, perdidas as penas ganhou escamas. O medo agora era o fundo do rio e seu lodo ameaçando tragar-me para o fundo do nem mais. Do céu inconsútil passou a habitar os igarapés, os igapós, o espiralar de entrecorrentes do rio com o mar onde tudo se perde. Sua estridência deu lugar a sussurros, um gotejar da bica, um murmúrio de regato, um espadanar de bicho no remanso. Tudo o que é côncavo guarda sua voz e o que nela não é voz espreguiça-se nas pedras batidas pelo mar onde quara o sargaço de suas melenas prênseis.
Partilhada a rede não mais me angustiou, partiu a buscar outros núbeis.

5.1.07

O Hotel Literário

A senhoria recolhe os diários dos quartos recém vagos e pretende construir seu próprio diário a partir da leitura deles. Infelizmente ainda está em branco, ela teme que a própria criatividade deturpe idéias originais.
No seu empreendimento é possível alugar um quarto onde se possa ler e escrever. Há salas de leitura para os que não desejam escrever ou para os que não se ressentem da influência ou não temem ressentir-se e estão felizes em manter alguma identidade. Não há camas, apenas cadeiras, poltronas, sofás, tamboretes. Há namoradeiras e bancos de praça para os que preferem a democracia dos corredores. As long-cheses estão lá, mas ninguém mais as usa. Quando solicitaram um genuflexório a novidade tornou-se um ‘hit’ entre os jovens. Há também banheiras, criados-mudos e penteadeiras, mas não há espelhos. As paredes são cegas de janelas e apesar deste detalhe não é um lugar que prima pela discrição. Os amplos portais recebem uma fina gaze a separar os quartos dos corredores.
Os visitantes regularmente voltam ao hotel e retomam seus escritos. Quem o visita pela primeira vez encontra um diário em branco sobre a penteadeira, canetas, lápis, mataborrões, grampeadores, perfuradores. Corretores líquidos e borrachas são proibidos. Por um acréscimo na diária poderá dispor de uma máquina de escrever ou um gravador. O visitante abastado deve requisitar o estenógrafo com antecedência. A senhoria tem muita dificuldade em encontrar estenógrafos, os que lhe oferecem serviços são, na verdade, críticos literários falidos.
Papeis há de todo tipo na recepção, pergaminho e papiro além de pincéis, bico de pena e matrizes tipográficas. Alguns visitantes preferem fabricar seu próprio papel e para isso existe uma cozinha com tudo o que se necessita para tal. A maioria dos visitantes prefere os singelos diários e esferográficas.
Há algum tempo um rapaz solicitou um quarto e uma máquina de escrever. Hoje deve beirar sessenta anos, mas não abandona seu nicho. A senhoria reconhece seu modo monótono de escrever em meio ao martelar de teclas da ala destinada aos que gostam de escrever à máquina. A senhoria tem predileção por esta ala. È o lugar mais organizado, pois ela desculpa sua presença constante inventando quefazeres ali. Ninguém se lembra, mas ela foi professora de teoria musical.
Os diários não podem sair do hotel. Amontoam-se nas prateleiras e forram todas as paredes. Os que não foram assinados recebem uma encadernação vermelha, são os mais procurados. Os datados não possuem chanfradura e acumulam pó.
Ao lado esquerdo do Hotel Literário existe uma funerária.

Uns sentidos

Estala a galha seca
Estala o talo até o grelo
A planta grela e logo medra, logo encraquela
Antes que o verde lhe distinga das pedras
farta poeira polvilha tudo
Pouca saliva mal umedece os lábios
Tudo em torno tem aparência de morte
Tudo arranha e perfura


Faminta a loba cruza o parreiral
Fareja lúbrica, o mato
Ao focinho beija-lhe o orvalho
Roçam-lhe tesos os caniços
De cauda erguida some na distância
Gritam-lhe as uvas: Coma-nos!
Distraída sussurra: Sou carnívora.


Posta de amar
Cardo pungente
Fiz e desfiz a chegada escarlate
Fiz e refiz
O músculo incerto
Que pulsa e congela
Que ilude, que engana
Que fende, que quebra
E ama, e ama