20.1.10
A incógnita me burla onde quer que eu possa suspeitá-la.
Assim que a percebo na sombra dos móveis ela se torna uma meia, camisa torcida, um trapo, qualquer coisa que expresse inocência fingida. Ela também se oculta nas novas manchas da parede depois da chuva. Se infiltra nos recôndidos, me aguarda num cesto. Mimetiza-se entre os pêssegos ou na tapeçaria pendurada no vão das portas. O que resguarda a memória do tronco de uma árvore alí se enrosca em volutas atávicas de quem há muito só sabe tocar as coisas com o todo de seu corpo. Pendura sua cabeça triangulada como o fiel da balança; assim todos os pêndulos me assustam como se ela os possuísse. Ela está na maneira como os líquidos viscosos se derramam. Ela mesma derrama-se em queda surda. O ar suspenso em meus pulmões ajuda-me na petrificação diante de sua sinuosidade. Só assim a percebo além de sua contenção; fugindo à sua constrição.
Petrificar-se é adormecer e também estar alerta à sua especificidade contínua, contígua.
(postado inicialmente aquí em 7 de dezembro de 2006)
8.1.10
Defloração
quero ver por força.
Fólio e desfolho a fluorescência do que é, súbito, verde.
E lembro-me, antes, entre as páginas de um livro
a fingir lugares secretos.
7.1.10
Laboratório de Sombras
Adriana Barbosa Rocha
Aldovando Rosa Morais
Alexandre Silveira de Souza
Amarílio Sales
André Nóbrega Maia Souza
Angra Silva da Mota
Cida Lima Barreto
Cláudia Furtado Baqueiro Buonavita
Daiane Gama Rocha
Daniela Maria Ponte Viana
Edinei Querino Ribeiro
Francinne Pereira Oliveira da Silva
Juliana dos Santos de Sá
Maria Aparecida de Souza
Maurício Lessa da Silva
Rita Elizabet Aguilera
Tacira Oliveira Santos Coelho
Valessio Soares de Brito
Yohanna Marie Assumpção da Silva
10.12.09
Laboratório de Teatro de Sombras

A primeira com 12 encontros (48h) no Museu de Arte Moderna -BA
A segunda com mais 12 encontros (48h) no Teatro Castro Alves.
O inédito conto que dá nome ao projeto e ao novo espetáculo é uma leitura da poetisa Myriam Fraga para o mito indígena da descoberta do fogo e narra a história de um jovem guerreiro que é transformado em pássaro para ir ao céu roubar as chamas do palácio do sol.
Ministrante: Olga Gómez
Assistente: Fábio Pinheiro
Local e datas:
1ª fase
12 encontros (48h)
11 a 27/01/2010 MAM-BA
das 8:30 às 12:30 horas
2ª fase
12 encontros (48h)
28/01 a 26/02/2010 TCA
Valor: gratuito
Inscrições: até 05/01/10
http://www.arodateatro.com/
Vagas disponíveis: 25
Seleção:
desenho espontâneo e improvisações com bonecos
07/01/2010 MAM-BA
Conteúdo programático
1ª fase (MAM-BA)
Utilização de padrões árabes decorativos, do simples ao complexo, análise dos elementos plásticos utilizados e avaliação do poder de convicção visual;
Divisão do espaço/formato, sem utilização de elementos de medição, a não ser o olho com o objetivo de aumentar a capacidade de medição visual;
Elaboração de desenhos planos que sugiram ilusão espacial, mantendo a bi-dimensionalidade;
Utilização das ferramentas para recorte em couro e articulação dos perfis .
2ª fase (TCA)
Teoria a respeito da história do teatro de bonecos e do teatro de sombras animadas. A sombra chinesa e a origem do cinema de animação a partir dos experimentos com a lanterna mágica;
Sensibilização dos sentidos e observação do corpo, suas articulações naturais e os princípios para criação de sombras;
Apreciação do tempo da matéria por meio de exercícios de foco com bonecos de sombras previamente confeccionados;
Experimentações práticas com focos de luz e atividades para explorar as nuances das sombras;
Transferência de ações e emoções para a sombra e produção de repertório de movimentos;
Composição de cenas com base em roteiro fictício, troca de experiências entre os participantes e divulgação de literatura e fontes de consulta para pesquisa posterior.
8.12.09
Ciclo de palestras sobre teatro de animação
Simplesmente Vincent price e Tim burton
"A lógica que organiza essas formas de representação do sujeito na puberdade está marcada pela referência ao significante fálico. Trata-se, em síntese, de versões narrativas apoiadas na metáfora fálica alcançada pela passagem pelo complexo de Édipo. Em sua representação alienada _ o romance familiar _, o sujeito situa-se fora de uma cena em que se alternam as atribuições sígnicas de menos e mais, relativas ao falo. A família da realidade é menos com relação à família imaginária ou ideal. O enigma que a sexualidade fálica propõe ao sujeito representa-se, no discurso do Outro, como possibilidade de deslizamento _ do menos ao mais, e vice-versa. Nesta duplicação imaginária, opera-se o velamento do significante que indica o lugar do sujeito da enunciação (S1). A posição do sujeito na filiação e na sexuação fica submetida, aqui, aos efeitos imaginários de significação de uma herança nobre ou denegrida. "
Maria Cristina Poli*
*Psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), professora da Faculdade de Psicologia da PUC-RS, doutoranda na Universidade de Paris XIII, autora do livro O espírito como herança: As origens do sujeito contemporâneo na obra de Hegel.
7.12.09
Assalto ao Espaço Parlapatões

"SÃO PAULO - O dramaturgo Mário Bortolotto, baleado no sábado, 5, em uma tentativa de assalto na Praça Roosevelt, em São Paulo, permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Misericórdia nesta segunda-feira, 7. Seu estado de saúde é grave, mas ele apresenta boa recuperação, segundo o médico Vicente Dorgan Neto. Até agora, Bortolotto não sofreu nenhuma das temidas complicações pós-operatórias, comuns em casos de tal gravidade".
Ler mais:
Estadão, 7 de dezembro de 2009
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Quase todas as peças escritas por Mário Bortolotto já foram publicadas, por editoras pequenas, num total de quatro livros. Também publicou um livro de poesia, Para os inocentes que ficaram em casa, além dos romances Mamãe Não Voltou do Supermercado e Bagana na Chuva. Em 2006, lançou o livro Atire no Dramaturgo, uma coletânea de textos publicados em seu blog Atire no Dramaturgo,no qual escrevia diariamente desde 2004. Do blog Feiticeiros da Arte.
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É mesmo tudo muito triste e revoltante. Também bizarro. Acho que escolhí bem o nome de meu blog...
27.11.09
Mensagens em garrafas com destino preciso
num porto de partida
ninguém é mais que o anzol
entre o peixe e a isca
no lamarão que bordeja
entre o gôzo e o ataúde
ninguém é mais que uma vida
entre a gávea e a quilha
entre o leme e o timão
ninguém é mais que uma ilha
Não pode ser, mas se é pode.
Este texto de João Cabral de Melo Neto conhecí em uma música do Karnak (Num pode ser, Universo Umbigo, 1997) onde Antônio Abujamra o recita. Entendo que para o poeta, depois de tantas perdas (de coisas desnecessárias) impostas pelo Amor a perda do medo da morte seja uma bênção, muito bonito, muito cristão... mas é pelo medo da morte (ou da possibilidade dela) que fazemos arte! Já dizia o outro: o amor é uma flor rôxa...
"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte".
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.
26.11.09
15.11.09
Gosto como a personagem do replicante representa Jesus Cristo (o prego na mão) e referencia Dom Quixote (as pás de moínho no meio da névoa). Criaturas tão bem criadas que já nem importa se já existiram realmente.
Tipo assim...
Pictorial Webster's: Inspiration to Completion from John Carrera on Vimeo.
Meu sonho era ser tipógrafo.14.11.09
Acordo velho
Da madrugada
De um dia assim
Um velho anda
De terno velho
Assim assim
Quando aparece o Guarda Belo
Quando aparece o Guarda Belo
É posto em cena fazendo cena
Num treco assim
Bem apontado
Ao nariz chato
Assim assim
Quando aparece a cor do velho
Quando aparece a cor do velho
Mas Guarda Belo
Não acredita
Na cor assim
Ele decide
No terno velho
Assim assim
Porque ele quer um velho assado
Porque ele quer um velho assado
Mas mesmo assim
O velho morre
Assim assim
E o Guarda Belo
É o herói
Assim assado
Porque é preciso ser assim assado Porque é preciso ser assim assado
Assim assado de João Ricardo