6.10.06

Mensagens em garrafas com destino preciso

ninguém é mais que a espera
num porto de partida
ninguém é mais que o anzol
entre o peixe e a isca
no lamarão que bordeja
entre o gôzo e o ataúde
ninguém é mais que uma vida
entre a gávea e a quilha
entre o leme e o timão
ninguém é mais que uma ilha
somos destroços de antigos naufrágios. Vagas aglomeram-nos nestas regiões abissais onde soldam-se aos mecânicos os orgânicos em ensaios híbridos terríficos. Usinas metamórficas do abismo
duas bolhas já se consideram espuma
essa é a concha partida
que preserva a lembrança de quando não me contive
esta areia que arremeda húmida uma antiga concisão constrói desconstruindo
a morada que hoje me abriga
libertar-me foi perder-me
fere-me os pés essa praia de conchas quebradas
livre de traduções alheias não há nácar que me reflita e vivo no opalescer de nada me constatar existindo
sem contenções espráio-me indefinido
sou um eterno regorgitar de bolhas na espuma
minha história contei ferindo a areia
nada sobrevive à contingência das marés
sobre os abismos passa a barca em suas flutuações
aríete de desbravar portais aquosos
esta é a minha barca
este é o timão partido que já não a conduz
a quilha hoje cega e rombuda não corta as águas
o leme gira sobre si mesmo
minha barca de tanto mar criou uma cauda de peixe
não mais afunda o que não quer flutuar
o mascarão já não aponta mas delira
não há distinção entre céu e mar
as estrelas só brilham por brilhar
meu sextante é peso para papéis
que querem fugir com o vento
sopra o pó dos ossos há muito empilhados nos armários
ordena-os em pares e dá-lhes nomes
assim, etiquetados sob seus vínculos
saiba-os em sua profusão
cunha também teu nome em cada um deles
e os de todos eles nos teus próprios
firma de crâneos as valas sobre as quais
os fêmures disporás em colunatas
trançarás vertebras para paredes
e sobre o teto os cabelos imorredouros
não permitirão à chuva molhar teu chão de metatarsos
erguida tua casa de ossos
has de morar nela tua eternidade
em paz com teus crimes
agora inteiramente úteis em sua finalidade
um punhal de lenda fere fundo a história que hoje expia
o que calou na garganta dos esquecidos
atingindo sua pena de dourar páginas

7 comentários:

V.B. disse...

Meu querido sextante também já não me serve... Guardei-o por gratidão. Um dia eu o repassarei a alguém que, por brincadeira de Maya, ainda acreditará que pode controlar alguma coisa. No momento, não meço minha distância dos astros, estou no meio deles, dançando ora com Marte... ora com Saturno...

sandra disse...

Versos contundentes encontro por aqui... como foi bom lê-los!! bjs

Rubenetto disse...

Passei rápido no seu blog porque o computador da minha casa é comunitário...
Mas já sei que sua poesia me diz muito. Eu voltarei com mais tempo.

Ro Druhens disse...

Vim agradecer a visita e ser óbvia dizendo do encantamento dos seus textos. Volta no Sétima Letra, a escada estará mesmo invertida?rsrsr Beijo da Ro

Dácio Jaegger disse...

Sua visita me proporcionou estar aqui para apreciar as mensagens com destino preciso, excelente, e o que vai por aí sobre bonecos.Bom gosto acima de tudo neste blog. Um abraço

Alequites disse...

Ah!!! Adorei o texto.
Tenha um grande fim de semana.
Ops! Sexta-feira 13 com muita sorte, viu!?

Janaina Staciarini disse...

Praia de conhcas quebradas que ferem os pés... Amei isso, Fábio.
Beijão!!