8.4.07

Onde tudo se perde

Embaixo o negrume insondável.
Aquele galho era agora todo o seu mundo, única coisa existente a salvá-lo do horror sob si. Não que pudesse sequer olhar, que o negrume se olha sem olhar. O negrume começa por dentro, destemperando a alma, enfraquecendo músculos, tornando tudo a volta parte do pesadelo. O nome do horror teimava-lhe na mente. Queria evita-lo, evitar o nome, era aquilo, a coisa, o sem-nome, o horror. Mal se sustinha no galho, os dedos dormentes, um cansaço de horas. O galho que sabia frágil. O horror movia-se irritado. Como não pudera sentir-lhe o cheiro antes? O horror exalava odores que suscitavam imagens repugnantes de pêlo molhado, de lodo, de azedo de coisa podre. Imaginava a bocarra aberta na barriga exalando aquele cheiro, pronto pra lhe engolir inteiro caso aquele galho não mais lhe suportasse o peso. Vinham-lhe os medos da infância, do que se contava, que a coisa te engolia inteiro e tu não morrias não! Ia vivendo nas entranhas.
O rio estava perto, e se pulasse na água? Ficando era certa a morte, ou pior. A árvore tremia, imaginava as garras do horror cada vez mais perto; ouvia a casca da árvore se soltando. Arriscaria pular nagua, não tinha outro jeito, era assim. Preparou o pulo, precisava cair o mais longe possível da árvore, queria saber com mais certeza de que lado pular, o cheiro do horror lhe embotava a mente, o timbó do horror. Botava o nariz lá pro alto a ver o cheiro da água. Sentiu o musgo na árvore, resolveu pular pro lado que o musgo cresce. Lascas da casca da árvore já lhe atingiam o rosto. O horror bem perto do seu calcanhar, o cheiro. Soltou as mãos, impulsionou com as pernas e foi cair longe no igarapé, os galhos sob a água lhe arranhavam, prendiam, e ele só imaginava as garras longas do horror lhe alcançando a pele. Nadou com espadanar furioso, do outro lado agarrou as raízes do mangue. O grito do horror lhe veio alma adentro, um silvo agudo, triste, uivo de maldição. Aliviou-se ouvindo longe o grito, mas já o desespero apertou-lhe a garganta quando um corpo pesado quebrou o espelho dágua vindo-lhe ao encalço, desatou carreira no mato até perder os sentidos.
Depois que o trouxeram passaram dias até não mais ver bicho quando olhava gente; ainda assim de noite com tudo se assustava e dava de se debater e gritar. Os pequenos apanhavam dele e perdiam seus apitos.
Ficou mais de mês empanemado. Todo mundo sabia que mais cedo ou mais tarde ele ia falar. Não era o primeiro a voltar do mato assombrado. Ficou de resguardo que nem mulher prenhe. Dormia o dia todo e de noite fazia vigília. Sempre tinha um ou dois a acompanhar sua insônia. Aumentavam o fogo e pitavam sentados nos tamboretes. Numa dessas noites começou a desatar a língua. Era assim: uma palavra, um silêncio, outra palavra; talvez com medo de atrair o bicho, de que a memória do horror viesse toda de vez. Os outros ninguém não dizia nada, só escutavam. E quando ele silenciava era possível imaginar a outra parte da história naqueles olhos vidrados em direção à copa das árvores, como se através delas, lá longe, na cabeceira do rio, visse o horror em meio ao negrume, pensando nele. Quando o mato silenciava ficava de butuca, apurando o ouvido, espreitando o grito assobiado do bicho. Mas era só ouvir pássaro, grilo que ele sossegava, baixava as pálpebras aliviado. Se o horror estivesse por perto não haveria som nenhum, só o estalar de galhos.
Nunca mais saiu pra pescar sozinho, quando ia já queria voltar no chiar da cigarra.
Menino não teve que deixou de ouvir na beira da noite essa história, mesmo depois, homens feitos, pegavam seus tamboretes e se chegavam pra perto dele quando acendia seu cachimbo. A cada noite havia um jeito novo de contar, sempre evitando o nome do bicho. Subiam-lhes os pelos da nuca se ele calava de olhos duros lá pro lado do mato encolhendo-se no tamborete como se de novo encarapitado no galho daquela árvore, balbuciando que Ele estava lá longe, esperando.
Uma noite que não tinha ninguém a querer lhe fazer companhia, sumiu. Deixou o cachimbo sobre o tamborete. Perdeu-se no mato. Nunca acertou o juízo, ou foi bicho que lhe veio buscar.





'Perro semihundido' 1820 / 21, Museu do Prado, Madrid


A cabeça aflita de um cão em meio a aridez. É preciso ter cuidado com vítimas encurraladas. Gosto muito das pinturas negras de Goya, na verdade, para ser mais preciso e talvez didático, a pintura dele a ilustrar essa postagem deveria ser 'Saturno devorando a un hijo' mas o 'Perro' é mais sutil e igualmente aterrador. Por enquanto é possível ver grande parte de seu trabalho em gravuras no MASP até 20 de maio

3 comentários:

Felipe disse...

Oi Caio!
Apesar do tom sombrio desse conto fascinante, to por aqui pra te desejar uma Páscoa feliz.
E que encontres ovos cheios de boas surpresas pelo ano afora... sem duplos sentidos... ou com duplos sentidos também, ora essa. Seja o resto deste ano como quiseres sonhar!
Abração

Ricardo Imaeda disse...

coincidência ter uma camiseta com essa mesma figura.
a exposição de Goya é belíssima.
assim como sua página.
um abraço aqui de SP.

Fábio Pazzini disse...

Gostei muito de como você nos envolve neste conto. Achei aterradora a maneira de não dizer o nome e chamar de horror, é o próprio medo escrito.